quinta-feira, agosto 07, 2008

XXIV

Insólito amor cotidiano


Poeticamente falando
Eu não sou poeta
Nem o Fernando, aquele louco
Desconcertado

Matou seu vizinho com uma paulada
Jogou a mãe de uma escada
Bebia e fumava maconha o dia inteiro
Mas arranjou uma namorada

E como sofreu a coitada
Apanhava noite e dia
Não fazia nada
Deixou-o
Ele realmente não a amava

Depois de muitas garotas
Caiu de queixo erguido
Quando viu a mulher da sua vida
Loira, baixa, olhos azuis e aleijada

Estava parada sobre a marquise de um sex shop
Ele chegou com seu jeitão, todo errado
E se ofereceu pra empurrar sua cadeira de rodas

Dali foram a um bar e encheram a cara
Dormiram juntos por muitos dias
Ela se formou antes do acidente
Já era aposentada

Aquele retardado a amava de verdade
Fazia tudo, largou o vício e arranjou um emprego
Ralava vendendo pirataria
Era esse seu jeito, puro

A mulher ficava em casa, dormindo
Da mesma laia que ele, drogada
Sua desgraça o salvou
E agora ele estava preso
Também por acidente

Ele nunca pensou em submeter-se na vida
Era mesmo um cão sem dono, um animal
Horroso e espantado
Nem sabia como falar de si mesmo

Mas desse jeito ficou
Um servo
Até a safada fugir
Não conseguiu ir atrás

Sofreu
Como um homem de verdade
Que nessa hora acha mais fácil esfaquear alguém
Do que gostar de uma mulher



R. Miranda

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