Insólito amor cotidiano
Poeticamente falando
Eu não sou poeta
Nem o Fernando, aquele louco
Desconcertado
Matou seu vizinho com uma paulada
Jogou a mãe de uma escada
Bebia e fumava maconha o dia inteiro
Mas arranjou uma namorada
E como sofreu a coitada
Apanhava noite e dia
Não fazia nada
Deixou-o
Ele realmente não a amava
Depois de muitas garotas
Caiu de queixo erguido
Quando viu a mulher da sua vida
Loira, baixa, olhos azuis e aleijada
Estava parada sobre a marquise de um sex shop
Ele chegou com seu jeitão, todo errado
E se ofereceu pra empurrar sua cadeira de rodas
Dali foram a um bar e encheram a cara
Dormiram juntos por muitos dias
Ela se formou antes do acidente
Já era aposentada
Aquele retardado a amava de verdade
Fazia tudo, largou o vício e arranjou um emprego
Ralava vendendo pirataria
Era esse seu jeito, puro
A mulher ficava em casa, dormindo
Da mesma laia que ele, drogada
Sua desgraça o salvou
E agora ele estava preso
Também por acidente
Ele nunca pensou em submeter-se na vida
Era mesmo um cão sem dono, um animal
Horroso e espantado
Nem sabia como falar de si mesmo
Mas desse jeito ficou
Um servo
Até a safada fugir
Não conseguiu ir atrás
Sofreu
Como um homem de verdade
Que nessa hora acha mais fácil esfaquear alguém
Do que gostar de uma mulher
R. Miranda
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